Nos dias 11/03/2021 e 16/03/2021, o Diretor-Geral do Instituto Fome Zero, José Graziano da Silva, debateu a importância da agroecologia para o futuro da agricultura no “Fórum Permanente: Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e Agroecologia” da Unicamp e no “World Organic Forum” da Akademie Schloss Kirchberg.

Rio de Janeiro, 25 de março de 2021 – Entre os anos 60 e 70, a Revolução Verde foi fundamental para evitar uma profunda escassez de alimentos a nível global, através do aumento da produtividade de alguns dos principais cereais em cerca de 40%. Para este fim, foram incorporados insumos químicos e tecnológicos ao cultivo dos gêneros que formavam a base da alimentação humana e poderiam ser comercializados globalmente (como soja, trigo, milho e arroz – ainda hoje as principais commodities agrícolas).

Contudo, apenas aumentar a produtividade agrícola sem melhorar a distribuição de recursos que permitam o acesso a uma alimentação saudável e nutritiva, não basta para reduzir a insegurança alimentar em um mundo que caminha para 8 bilhões de habitantes.

O resultado de estender este modelo da revolução verde exitoso nos anos 1960 aos anos 2000, com poucas alterações adaptadas ao novo contexto, trouxe uma série de “efeitos colaterais”, em particular sobre a biodiversidade e o clima do planeta.  Pode-se dizer que hoje a fome não é mais um problema de escassez de alimentos ou baixa produtividade agrícola: produzimos quantidade mais que suficiente para alimentar para toda a população mundial mas além disso desperdiçarmos ⅓ do total, enquanto mais  de 2 bilhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave (sem considerar a pandemia de coronavírus, que vem aumentando exponencialmente este triste dado).

A agroecologia é um modelo produtivo que busca resgatar formas  tradicionais de lidar com os recursos naturais,promovendo um equilíbrio entre a atividade agropecuária e o ecossistema, de modo a mitigar o impacto da produção  sobre o clima (que atualmente representa 23% ou mais das emissões de gases do efeito estufa). O seu objetivo maior  é promover o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais e garantir uma dieta saudável para todos. 

Durante o seu mandato como Diretor Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO reconheceu a agroecologia como um catalisador para a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Ocorreram diversos Simpósios e Reuniões internacionais sobre o tema, até a aprovação pela Assembleia Geral da FAO e do seu Conselho em Dezembro de 2019 da Iniciativa “Scaling up Agroecology” e dos  Dez Elementos da Agroecologia da FAO, um guia para apoiar os países membros na abordagem de uma agricultura sustentável. Em resumo, a agroecologia faz parte oficialmente do trabalho desenvolvido pela FAO para apoiar as demandas dos países membros em busca de práticas mais sustentáveis para seus sistemas alimentares .

Vale destacar também que o Comitê Mundial de Segurança Alimentar (CSA) solicitou um 

 Relatório ao seu High Level Panel of Experts (Painel de Especialistas de Alto Nível) do Comitê sobre Agroecologia e outras formas de agricultura sustentável. Esse relatório foi apresentado na plenária do CFS em outubro de 2019 e aceito como “contribuição técnica”, recomendando ao mesmo tempo uma consulta multissetorial antes da sua adoção a ser debatida na sua próxima reunião plenária,prevista para junho de 2021. Uma versão preliminar do documento foi distribuída em junho de 2020 para receber comentários e uma vez aprovado, será um documento de recomendação de políticas voltadas para a promoção da agroecologia entre os países membros. Atualmente o relatório divide opiniões entre dois principais grupos: de um lado alguns países membros como Argentina, Estados Unidos e Grã Bretanha que preferem evitar a discussão de temas globais como o comércio mundial e promovem a adoção de novas biotecnologias como forma principal de superação dos desafios do sistema alimentar; e o grupo formado por representantes da sociedade civil e academia (que esperam que o relatório e o comitê abordem questões sociais como acesso à terra e água, entre outras).

(Confira o relatório e seus comentários clicando aqui). 

O resultado desse embate deverá mostrar se os diferentes atores conseguiram chegar a um consenso sobre o tema da Agroecologia que possa se transformar em políticas recomendadas aos países membros.