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A partir de meados dos anos 90, com a estabilização monetária, o Brasil  experimentou uma importante redução da pobreza e desigualdade, especialmente pelo  estancamento dos efeitos perversos da alta inflação sobre a renda da população mais  pobre. Mas foi a partir de meados da primeira década deste século XXI que a redução da pobreza atingiu níveis históricos no país, com mais de 40 milhões de pessoas  deixando a linha da pobreza. As razões para essa mudança de direção foram a retomada  do crescimento econômico com a geração de milhões de empregos formais, a  valorização real do salário mínimo, e o mais importante: um conjunto articulado e  robusto de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, e da inclusão social e  produtiva de amplos segmentos sociais historicamente alijados do processo de  desenvolvimento. 

Também é fato reconhecido que, como fruto destas políticas, em 2014 o Brasil  conseguiu, pela primeira vez em sua história, ter o reconhecimento da FAO/ONU pela  erradicação da fome e consequentemente saindo do mapa mundial no tocante a este  flagelo. 

Embora tenhamos avançado na redução da pobreza e na erradicação da fome,  ainda persiste na nossa sociedade uma desigualdade elevadíssima, estrutural. Sabemos  que entre 2005 e 2014 a desigualdade de rendas apresentou uma pequena redução, o  Brasil ainda está entre os países mais desiguais do mundo. E, para alterar este quadro,  é preciso um conjunto de políticas públicas muito mais potente. 

Com o retorno de um projeto liberal desde meados da segunda década deste  século no Brasil, com o desmonte das principais políticas de seguridade social, queda  nos investimentos, desemprego recorde e desestruturação do mercado de trabalho, e,  mais recentemente, com a volta da inflação dos alimentos e a pandemia global da Covid 19, a crise social agravou-se de forma muito severa. Durante o ano de 2020, o governo  federal gastou R$ 322 bilhões com o auxílio-emergencial beneficiando 55 milhões de  brasileiros. Essas transferências de renda foram feitas com base na demanda, sem a  utilização do CadUnico e sem o respeito às condicionalidades impostas pelo Bolsa  Família. Com o fim dessa transferência de renda em janeiro desse ano e com a  continuidade da crise sanitária, as projeções da PNAD apontam uma taxa de 12,8% da  população vivendo abaixo da linha da pobreza. Ademais estima-se que pelo menos 50%  da população brasileira sofreram privações gravíssimas em virtude da queda de  rendimentos e das oportunidades de emprego e renda. 

Por pressão da sociedade organizada e por iniciativa do parlamento brasileiro,  medidas emergenciais foram tomadas desde 2020 pelas três esferas de governo  (federal, estadual e municipal), buscando garantir uma renda mínima de sobrevivência para as famílias. Neste exato momento, vive-se o drama e o dilema de como estas  medidas emergenciais terão continuidade, sendo o auxílio-emergencial o caso mais  emblemático, com várias propostas sendo debatidas pela sociedade, pelas diversas  esferas de governo e pelo Congresso Nacional. 

Que este conjunto de medidas emergenciais é fundamental para garantir alguns  direitos sociais básicos da população (alimentação, moradia, educação e saúde) e sua  sobrevivência, não há nenhuma dúvida. E, independentemente dos matizes teóricos e políticos, existe consenso e concordância na sua retomada, preferencialmente com  valores monetários dignos, ampla cobertura (pelo menos um terço da população) e  período de tempo suficiente para que as pessoas e famílias possam de (re)inserir em  alguma atividade, haja visto que a economia brasileira não dará sinais de recuperação sustentada no curto e médio prazos. 

E para esta retomada nos próximos anos, além das medidas emergenciais, é,  também, fundamental e urgente discutir alternativas e propostas consistentes de  políticas públicas que possam voltar a reduzir, sistematicamente, a fome, a desigualdade  e a pobreza no Brasil, dado que elas estão umbilicalmente associadas. Espera-se que o  debate que estamos realizando possa trazer luzes para o trilhar deste novo caminho,  contribuindo para o presente e para a futura (re)construção de uma sociedade mais  justa e equitativa ao longo deste século XXI. 

São Paulo, 4 de março de 2021